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TDL: um transtorno que impacta a vida toda — e ainda é pouco diagnosticado

Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a aquisição e o uso da linguagem oral (expressão e/ou compreensão). Trata-se de um quadro comumpersistente e que pode gerar impactos ao longo de toda a vida, mas ainda é subdiagnosticado no mundo todo.

A mudança da nomenclatura DEL (Distúrbio Específico de Linguagem) para TDL resultou do grande projeto CATALISE (2016 e 2017), um estudo multinacional e multidisciplinar liderado por Bishop e colaboradores, com o objetivo de estabelecer consenso clínico, reduzir confusões terminológicas e melhorar a identificação e o encaminhamento dessas crianças.

Em 2017, iniciou-se a primeira campanha global de conscientização do TDL, através da organização RADLD (Developmental Language Disorder Awareness), com o objetivo de tornar o transtorno conhecido por pais, professores e profissionais da saúde.

A campanha destaca três mensagens essenciais:

  1. O TDL é um transtorno de expressão e/ou compreensão da linguagem.
  2. O TDL é comum, porém pouco diagnosticado.
  3. A intervenção especializada melhora a qualidade de vida da criança e da família.

Por que a terminologia precisou mudar?

Antes do consenso, havia grande variabilidade de termos:
DELatraso de linguagemdisfasiadistúrbio do desenvolvimento da linguagem, entre outros.

Essa inconsistência gerava problemas como:

  • Falta de entendimento entre profissionais
  • Atraso no diagnóstico
  • Falha no encaminhamento
  • Rotulação inadequada na escola
  • Dificuldade para acesso a terapias e políticas públicas

O termo TDL passou a ser adotado por várias áreas (medicina, fonoaudiologia, psicologia, educação), e hoje está alinhado com:

✔ DSM-5 / DSM-5-TR → “Language Disorder” dentro dos Transtornos do Neurodesenvolvimento
✔ CID-11 (WHO) → códigos 6A01.3 / 6A01.4 relacionados a transtornos primários da linguagem


O que precisamos saber sobre crianças com TDL?

Crianças com TDL frequentemente são:

  1. Mal interpretadas como desatentas, “desinteressadas”, lentas ou desobedientes, quando na verdade apresentam dificuldade linguística.
  2. Mais vulneráveis a problemas de aprendizagem, pois linguagem é base para leitura, escrita e raciocínio verbal.
  3. Mais expostas ao bullying e ao isolamento, pois têm dificuldade para organizar discurso, conversar, brincar e negociar socialmente.
  4. Em risco acadêmico, especialmente em disciplinas que dependem de compreensão verbal.
  5. Com maior chance de comorbidades, incluindo dislexiaTDAHansiedadetranstornos de falaprocessamento auditivo, entre outros.
  6. Em risco socioeconômico na vida adulta, podendo enfrentar desvantagem laboral e menor competitividade no mercado de trabalho.

Estudos recentes reforçam que o TDL não desaparece espontaneamente na adolescência e pode persistir na vida adulta, impactando:

✔ relações sociais
✔ empregabilidade
✔ desempenho acadêmico e profissional
✔ autoestima e saúde mental


🎒 E na escola?

O TDL interfere diretamente na aprendizagem escolar porque a linguagem é o instrumento central do currículo. Portanto, crianças com TDL têm maior risco de apresentar:

  • Dificuldades de leitura (incluindo dislexia)
  • Dificuldades de compreensão textual
  • Erros ortográficos e disortografia
  • Dificuldades em produção escrita
  • Prejuízo em matemática (especialmente em problemas verbais)

E nas experiências bilíngues?

Evidências recentes mostram:

  • bilinguismo não causa TDL, nem piora o quadro.
  • Crianças com TDL podem ser bilíngues, mas podem apresentar alterações em ambas as línguas.
  • Com apoio adequado, o ambiente bilíngue pode inclusive favorecer vocabulário e comunicação social.

Por isso, cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando exposição linguísticacurrículo e suporte educacional.


🧩 Como os profissionais podem ajudar?

  1. Diagnóstico correto feito por profissional especializado, como o médico foniatra, em parceria com equipe multiprofissional.
  2. Intervenção terapêutica fonoaudiológica precoce, com abordagem centrada em linguagem funcional.
  3. Adaptações escolares, respeitando o perfil individual:
    • instruções mais claras e curtas
    • apoio visual
    • tempo estendido
    • avaliação diferenciada
  4. Acompanhamento longitudinal, pois o TDL pode ser uma condição de longo prazo.
  5. Apoio na vida adulta, com ajustes no trabalho e reconhecimento das habilidades.

Com suporte apropriado, indivíduos com TDL podem ter:

✔ vida social plena
✔ relações afetivas
✔ bom desempenho acadêmico e profissional
✔ autonomia
✔ bem-estar psicológico


Portanto: identificação e intervenção precoce são fundamentais!

Se você observa dificuldades linguísticas persistentes, procure avaliação com Foniatra.


Referências atualizadas

  • Conti-Ramsden et al., 2018–2024 – Outcome na adolescência e vida adulta.
  • Bishop DVM et al. (2016–2017). CATALISE Consortium.
  • RADLD.org – Developmental Language Disorder Awareness.
  • APA DSM-5 / DSM-5-TR – Language Disorder.
  • WHO ICD-11 – Developmental Speech or Language Disorders.
  • Norbury et al., 2017 – Prevalence and functional impact of DLD.
  • Bishop et al., 2017–2023 – Estudos contínuos sobre DLD e impacto ao longo da vida.

Médicas foniatras:

Dra. Mônica Elisabeth Simons Guerra

Dra. Vanessa Magosso Franchi

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